Talvez uma das perdas mais disfarçadas da vida adulta seja a perda da autenticidade. Não acontece de uma vez. Você não acorda em um dia qualquer e percebe que deixou de ser você. Acontece aos poucos, quase sem perceber. Você começa a aceitar algumas coisas para não decepcionar alguém, muda outras para caber em determinados lugares e, em algum momento, começa a perseguir sonhos que talvez já nem conversem mais com a pessoa que você se tornou. E então surge um questionamento: quanto da vida que você está vivendo ainda é verdadeiramente sua?
Eu escrevo isso do fundo do meu coração porque não acredito que exista uma resposta certa para a vida. Existe a vivência que você escolhe seguir, as decisões que toma e aquilo que aprende pelo caminho. Nem sempre as experiências vão te agradar e, muito provavelmente, você não vai conquistar completamente todos os sonhos que um dia imaginou. Mas, diante do processo da tua vida, você também vai perceber que os sonhos mudam de rota. Nem sempre aquilo que você desejava no início da carreira será o que vai desejar no final dela. Talvez algumas conquistas percam importância, enquanto outras, que você nunca havia imaginado, passem a fazer sentido.
Talvez você realize aquilo que precisava realizar. Talvez viva o extraordinário que precisava viver. Talvez também passe por coisas que jamais escolheria viver. Algumas pessoas vão te decepcionar, algumas vão te enganar, oportunidades vão surgir e desaparecer, relações vão terminar e situações que você acreditava serem definitivas vão mudar completamente de direção. Isso também faz parte da vida. Nem tudo está sob o nosso controle. Você pode ter fé, pode orar, pode tentar fazer tudo da melhor forma possível, mas ainda assim existem experiências que chegarão até você sem pedir permissão.
E eu acredito profundamente que algumas delas chegam apenas para transformar alguma coisa dentro de nós. Às vezes uma pessoa aparece com muita força, muda a nossa forma de pensar, desperta algo que estava adormecido, faz com que a gente enxergue a vida por outro ângulo e, depois de algum tempo, simplesmente vai embora. O mesmo acontece com algumas oportunidades. Nem tudo aquilo que chega precisa permanecer. Algumas coisas vêm para ensinar, outras para testar a nossa capacidade, outras para mudar o nosso pensamento e algumas apenas para mostrar que aquela versão de nós mesmos já não serve mais.
Por isso, diante de tudo que vemos hoje, eu considero persistir algo raro. Persistir em um projeto é raro. Persistir em um sonho quando os resultados ainda não apareceram é raro. Ler um livro com atenção em uma época em que todos disputam segundos da nossa concentração é raro. Se inspirar em pessoas que realmente fizeram acontecer, entendendo também os altos e baixos que elas viveram, é raro. Ter paciência com o próprio processo também está se tornando raro. Parece que todo mundo precisa chegar rápido, conquistar rápido, ganhar rápido, aparecer rápido, como se existir fosse uma corrida e como se houvesse uma idade certa para cada conquista.
Talvez seja justamente aí que a autenticidade começa a desaparecer. Quando você passa mais tempo observando a vida dos outros do que entendendo a sua própria. Quando começa a desejar aquilo que vê porque acredita que também deveria ter. Quando insiste em sonhos antigos simplesmente porque um dia disse que eles eram os seus sonhos. Crescer também significa ter coragem para admitir que algumas coisas mudaram dentro de você.
Talvez o grande desafio não seja conquistar tudo aquilo que imaginamos, mas continuar reconhecendo quem somos enquanto caminhamos. Porque não adianta chegar a muitos lugares e perceber, no final, que para estar ali você precisou abandonar partes importantes de si mesmo.
Se os seus sonhos mudarem, permita que mudem. Se a rota precisar ser refeita, refaça. Se algumas pessoas precisarem partir, deixe que a experiência ensine aquilo que tiver para ensinar. Se você precisar começar de novo, comece. Só não permita que a necessidade de corresponder às expectativas dos outros transforme você em alguém que já não reconhece.
Deixo aqui uma reflexão: eu reconheço a pessoa que me tornei enquanto tentava chegar lá?
Até breve, caro leitor.