Comemoram-se inúmeras datas em nosso país. Nem todas merecedoras de loas. Porém, algumas marcam nossa emoção. Tal é a comemoração do dia do Pai. Pus-me a pensar, pensar. Percebi, alarmada, que em vida pouco conheci a meu pai, em profundidade.
Parece incrível, entretanto, é quando se perde um ente amado, é exatamente aí que ele nos aparece na sua realidade.
Vejo e sinto pai Anacleto, como não o percebi bem, quando o tínhamos presente. Que lástima me dá, essa sensação amarga de não tê-lo valorizado mais. De não tê lo abraçado diuturnamente. De não tê-lo elogiado, compreendido com atenção redobrada!
Hoje, sei com clareza e orgulho quem me presenteou com a vida. Hoje!
Lembro de ouvir minha mãe contar que eu, menininha, estava sempre a brincar sobre a barriga de meu pai. Pelas fotos, vejo meu elegante e altivo pai, sempre de terno, gravata e chapéu, honrando qualquer festividade por mais simples que fosse. Lembro de sua correção ao observar datas de pagamentos. Nunca ficava devendo nada; sempre atento e amargurado observando as notas do armazém, por exemplo, e o dia exato para pagar.
Era leitor de jornais, de livros, em especial de livrinhos de farwest.
Sei hoje, e admiro com sinceridade, todos os seus talentos, que eu não conseguia aquilatar na minha juventude. Tudo daquilo que precisássemos, ele construía com a máxima perfeição. Os pintava sempre na cor verde. Tudo! No banheiro (especialmente quando residimos na casa Primeira Escola) ele construiu um porta toalha, em madeira com lugar para a toalha, mais duas gavetinhas e um espaço para colocar flores ou perfumes. Lindo! Verde!
Em madeira, desenhava e recortava tábuas de corte em formato de porquinhos para cortar o pão, sem deixar farelos na toalha. Estes sem pintar.
De tempo em tempo, recortava em madeira o “tapiel” para a polenta. Também sem pintar. Camas de madeira e lona para a Cleusa e eu tomarmos banho de sol, ele as construía. Armários para livros e escrivaninhas elegantes e envernizados eram belas obras de pai Anacleto. Extremamente dedicado ao seu lar, construía ou reformava janelas, colocando molduras com telas fininhas, para que pudessem permanecer abertas no verão, sem permitir a entrada de insetos.
Meu pai Anacleto nunca pedia nada emprestado. Suas ferramentas eram todas compradas, aos poucos, por ele. No entanto, toda rua vinha pedir emprestadas as dele, que as cedia sem pestanejar.
Uma doce lembrança eu a revivi, olhando uma foto onde estamos Cleusa (poucos meses) e eu com quatro anos e percebi o que minha mãe contava: meus cabelos clarinhos eram penteados por meu pai, e para ir passear, ele sempre colocava fitas neles, em variadas cores.
Em outra foto, vi o amor e desvelo de pai Anacleto e o amei com verdade, agora aqui no presente. Aos domingos passeava-se no “centro” em família. Dia muito esperado! Algumas vezes ele me vestia, me penteava e ai passear na cidade, levando-me pela mão e segurando minha pequena sombrinha. A pé, desde o bairro Três Vendas, lá ia eu no colo do pai, passear, coisa que, na época, eu não entendia o valor gigantesco daquele momento.
Para algumas pessoas a juventude é bela. A minha foi apressada: eu somente queria estudar, ler, crescer, trabalhar sem descanso, muitas vezes em várias escolas no mesmo dia. Tudo a pé, sem conseguir comprar um carro. Eu queria desesperadamente poder comprar uma casa para meus pais.
Hoje, reflito se minha pretensão foi suficiente para dar a eles todo o amor que mereciam?
Outra lembrança chega a mim: Certa vez, eu gravando uma entrevista com o Sr. Helly Parenti para um livro meu sobre os “Italianos no Norte do RS”, ele me falou: “Seu pai Anacleto, grande líder sindical”. Surpresa, dei-me conta de que nada sabia da luta de meu pai. O via seguidamente sair para reuniões e assembleias, sem perder uma.
Quanto desconhecimento se tem, e como dói perceber tão tarde.
Quando a saudade chega de mansinho e se agiganta, só resta chorar até esgotar o pranto e dizer baixinho, com a fala do coração: Obrigada, pai Anacleto, pelo tudo e pelo tanto!