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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas e o Andarilho Acima das Nuvens

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O Sapateiro de Bruxelas e o Andarilho Acima das Nuvens
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Por: Dr. Alcides Mandelli Stumpf, Médico, Membro da Academia Erechinense de Letras, Presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS

O Sapateiro de Bruxelas adentra ao Café em grande estilo. Carrega, com alguma dificuldade, um pacote retangular de papel pardo, que mais parece um enorme envelope. Faz suspense... Cativa a atenção da plateia e deposita o invólucro sobre uma cadeira afastada. Abre a embalagem aos poucos... Cantarola a música da Pantera Cor de Rosa, de Henry Mancini, como se fosse strip-tease. Aos poucos, alegre e matreiro, revela o curioso conteúdo do invólucro que, finalmente, é descoberto e devidamente apresentado ao público, já inquieto.

Trata-se da cópia de uma pintura antiga, deveras interessante - afirma o mestre.  Na gravura, há uma figura solitária, em impressão Giclée, sobre tela de tecido de algodão, que mede, aproximadamente, setenta por noventa centímetros.

O mestre, paciencioso, explica que no plano principal há um andarilho, que contempla uma imponente paisagem alpina de cima de um pico rochoso, tendo aos pés densas nuvens sombrias.

O cavalheiro, que está de costas para o apreciador da obra - mas sem ignorar a presença deste - convidando-o a contemplar o horizonte.

O personagem, altivo, que veste uma casaca verde, mira a paisagem em atitude de autorreflexão e, em posição ereta, mostra sua dominância perante o todo. Em contraste, a imponente paisagem parece absorver seus pensamentos.

No plano de fundo – chama a atenção o artífice - há cumes próximos no mar de neblina que se dissolve no limite da terra, além de uma montanha distante que se eleva sobre a cena contra um céu brancacento e luminoso.

Mostra o velho belga que o autor usa a névoa para obscurecer o que está entre as imensas montanhas e, dessa maneira, criar um ar de mistério e de natureza superior, além da sensação de perda, no infinito.

Nesse ponto, o artífice faz uma breve pausa, sorve o café aromático e ensina que a belíssima obra original se chama “Caminhante Sobre o Mar de Névoa”. Capricha na pronúncia erres, e fala no mais puro alemão: Der Wanderer über dem Nebelmeer. A turma do cafezinho, à essa altura, vai ao delírio frenético perante a sabedoria do velho.

Informa ainda que o quadro original, também conhecido como “Viajante Sobre o Mar de Névoa”, é uma pintura a óleo, de 1818, do artista alemão Caspar David Friedrich e que desde 1970 pertence ao acervo da Kunsthalle de Hamburgo. 

Na sequência, o Bruxelense comenta que as obras de Friederich, muitas vezes, possuem uma atmosfera nostálgica, com brumas, árvores secas, além de dramáticos efeitos de luz.

Lembra que a atmosfera melancólica de seus quadros contribuíram para que ele se tornasse conhecido como um homem taciturno, embora sua correspondência revele um fino humor e autoironia. E mais - desde que estivesse em um círculo de pessoas que o deixassem à vontade, ele mostrava um talento incomum para chistes e outras brincadeiras – afirma o estudioso e detalhista artesão.

Foi amigo de Goethe; de Johanna Schopenhauer - mãe do filósofo Schopenhauer; de Carl Gustav Carus - médico, filósofo e pintor - entre outros artistas e intelectuais marcantes da sua época.

Ao dar sinais de que encaminha o final de sua prédica semanal - dessa vez adornada com recursos áudio visuais - o Bruxelense ressalta a importância de Friederich em cultivar a apreciação das coisas, da natureza e das cenas cotidianas - criações percebidas pelo olho espiritual além do olho material.

Essa obra, em particular - afirma solenemente o belga - trata de uma metáfora sobre a incerteza do futuro e o papel que o ser humano desempenha efetivamente sobre os acontecimentos do porvir.

De modo natural, tal associação livre de ideias, ao seu entender, faz com que, momentaneamente, sejamos levados a pensar no contexto político-social brasileiro.

Observem: o cavalheiro viajante veste verde e está no topo da montanha pedregosa a demonstrar pretenso domínio sobre a cena e sua proximidade. Por outra, o precipício e os acontecimentos urdidos à volta, mostram ao mesmo tempo a nossa insignificância individual perante o todo tramado e, fatalmente executado, às nossas costas.

Também, ninguém sabe o que realmente existe sob a densa bruma e, tampouco, o que nos guarda o futuro que, certamente, não será radiante de luz. Indubitavelmente, para o calçadista, Friederich e os acontecimentos recentes conseguem transmitir um sentimento de tragédia através da paisagem e das faces atônitas e ultrajadas de muitas pessoas de bem.

Ao finalizar, cita outra vez Goethe, para quem, quando um ser humano desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor. Ainda, reforça o pensamento do grande escritor e filosofo alemão, autor de Fausto: “na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira; quem tem bastante no seu interior, pouco precisa dos de fora. ”

Sem dúvida, ao que tudo indica – nos diz o Sapateiro de Bruxelas -, nos próximos anos, vamos precisar muito de nossas forças interiores, até porque, forças superiores, tirânicas e feéricas conspiram contra a liberdade de manifestação, expressão e pensamento.

Nesta altura, abana seu adeusinho tradicional, e sai de cena com o pacote debaixo do braço, cantarolando uma melodia, recorrente em sua memória afetiva, que remonta à década de 1950: Whatever will be, will be, ou seja, o que será, será...

 

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