Manter uma estrutura preservada com mais de 100 anos de história e que é considerado o maior símbolo do município, não é considerado uma tarefa fácil. O Castelinho é um exemplar construído quase todo em madeira, com elementos decorativos que remetem a uma arquitetura eclética trazidos pelas diversas culturas da imigração que passaram na Comissão de Terras.
Inauguração
Inaugurado em 20 de abril de 1916, o Castelinho apresenta uma construção mista e ocupa uma área de 886,36 m², sendo divididos em três pavimentos que são observados a partir do nível da estrada, posteriormente, foram acrescentados mais dois pavimentos no subsolo do prédio.
Sem a utilização de pregos
Produzida por meio de encaixes e pinos na própria madeira, sem a utilização de pregos na sustentação na edificação original, foi construída por Germano Mussing. Conforme a arquiteta e urbanista, Ariane Pedrotti, essa é uma técnica bastante utilizada na construção de madeira tradicional e é própria para não precisar de pregos, chamada de sambladura. “Apesar da técnica não ser muito comum e causar estranhamento para algumas pessoas, é muito utilizado nas culturas alemã e japonesa”, ressalta.
Mistura de traços arquitetônicos
Com uma mistura de traços arquitetônicos que, muitos deles, foram trazidos por imigrantes e observam-se presentes no patrimônio histórico em madeira até hoje. A expressão arquitetônica remete a uma combinação de elementos presente na estrutura do Castelinho, identificando-se na edificação a existência das culturas: italiana, grega, alemã e de outras etnias que passaram na Inspetoria de Terras. De acordo com a arquiteta: “O Castelinho possui várias colunas que remetem à estrutura grega e possui muitos elementos de várias imigrações diferentes que estão presentes. As inclinações dos telhados, o tipo de construção que remete a arquitetura italiana e o esqueleto da estrutura do prédio que reporta ao sistema construtivo alemão”.
Tombado em 1982
Gradualmente, com o passar do tempo, o Castelinho tornou-se um bem tombado a nível estadual, em 1982, diante da sua importância histórica da Comissão de Terras e, além da sua finalidade inicial, acabou sendo utilizado para outros espaços, como visto na matéria anterior.
Valor simbólico
Para o coordenador do Arquivo Histórico, Henrique Trizotto, o Castelinho é considerado um patrimônio histórico por apresentar um valor simbólico para a Capital da Amizade, assim como a sua arquitetura representa os diferentes movimentos que ocorreram ao longo da história do prédio e do crescimento da cidade erechinense.
Aulas a céu aberto
Como uma arquitetura eclética e a presença de detalhes arquitetônicos rebuscados, sua estrutura é digna de ser apreciada pela comunidade, principalmente, por profissionais da área da arquitetura. Segundo a ex-coordenadora de turismo e ativista cultural Maria Vanda Krepinski Groch, o professor de arquitetura José Albano Volkmer que visitou Erechim, ficou encantando com o município e começou a trazer os alunos das universidades porto-alegrenses que ministrava as aulas para conhecerem o Castelinho e a arquitetura presente na Capital da Amizade. “Ele explicava a arte dos prédios aos seus estudantes, em aulas a céu aberto", lembra Groch.
IPHAE
No início da década de 80, o Castelinho tornou-se um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE) como patrimônio histórico, se tornando o maior exemplar de edificação histórica preservada em madeira no Brasil e a única tombada pelo estado gaúcho. Como o prédio é propriedade do Estado, apesar da doação ao município erechinense, em 1998, todas as aprovações sobre o que são realizadas no local, são necessárias serem passadas e aprovadas pelo IPHAE. Dessa forma, o órgão municipal não possui qualquer autonomia para tomar decisões sobre a manutenção acerca do maior símbolo de Erechim.
Política de preservação de bens tombados
O IPHAE é responsável pela política de preservação de bens tombados que possuem algum valor patrimonial e cultural do estado gaúcho, estabelecendo também as diretrizes e orientações sobre proteção a qualquer tipo de intervenções que sejam necessárias serem realizadas nos patrimônios tombados. Recentemente, a secretaria de Cultura e Esporte de Erechim, Carla Talgatti, se reuniu com o órgão estadual para apresentar o projeto de restauração e cultural do Castelinho. Na sequência explica que o trabalho desenvolvido pela equipe técnica precisou passar por algumas modificações, que foram apontadas pelo IPHAE e, no momento estão procurando editais, assim como parcerias públicas e privadas para investir na revitalização do prédio.
Processo de restauração
A estrutura do Castelinho está marcada pela passagem do tempo e das restaurações realizadas ao longo da sua história, que é considerada mais velha que o nascimento do município de Erechim. Diferente de quando é reformada uma propriedade e possui uma maior liberdade para fazer mudanças no imóvel, desde que não coloque em risco a segurança, a restauração exige um maior cuidado. Conforme a arquiteta e urbanista, Angela Tacca, a restauração possui o compromisso de manter a originalidade de um imóvel, com poucas alterações no projeto inicial e utilizando os mesmos materiais da construção original do lugar.
Mão de obras qualificada
Para a revitalização de um bem tombado, é preciso utilizar uma mão de obra qualificada e empresas especializadas no material, no caso, do maior símbolo da Capital da Amizade, profissionais que entendam como trabalhar com madeira. Conforme Pedrotti, o carpinteiro é uma ocupação de trabalho bastante qualificado e importante na preservação do edifício erechinense, pois o profissional sabe como manusear cortes em madeira, trabalhar com lixamento e os encaixes do material presentes no prédio.
O custo da restauração
Na sequência explica que não é qualquer profissional de construção civil que seja capaz de lidar com esse tipo de trabalho. E este é um dos motivos do custo de uma restauração ser maior comparando com uma reforma de uma construção comum. Além disso, os materiais de construção contribuem para o custo elevado do investimento da restauração, pois não são muito utilizados no mercado atualmente, sendo necessário mandar fazer os materiais de construção, como a tinta mineral para restauro, especificamente para a obra.
Primeira e única etapa
No início do mês de agosto de 2013 foi iniciado o processo de restauro e finalizado cinco meses depois. Essa foi a primeira e única etapa, das três fases previstas no projeto de revitalização do Castelinho. Diferente do que muitos pensam, a construção em madeira não sofre risco de desabar completamente, apesar do estado deplorável que o prédio se encontra. Segundo Ariane, a recuperação da parte estrutural do patrimônio histórico preveniu de desmoronar o lado norte do Castelinho naquela época. “Tinha problemas com algumas calhas soltas e condutores de telhados que estavam apodrecendo toda parte da estrutura do prédio”.
Doação ao município
No final da década de 1990 foi iniciado o processo de doação do patrimônio histórico aos cuidados do município de Erechim, com a condição de utilizar o espaço com finalidade cultural e de preservar as características arquitetônicas do Castelinho. Essa exigência imposta pelo órgão estadual foi decisiva para a paralisação do processo da segunda e terceira etapa da restauração, há quase dez anos, pois não havia um plano cultural para utilizar o espaço após a conclusão da revitalização.
Planejamento cultural
A arquiteta e urbanista do Departamento Cultural reforça que é necessário criar um planejamento cultural juntamente com a proposta de restauração para que ele possa se manter ao longo dos anos, mesmo que mude, futuramente, a programação cultural: “Foi feita a primeira etapa, e não possuía um projeto de uso do Castelinho, não sendo possível avançar o restauro”, lembra Ariane.
Pesquisa de significado cultural
Para evitar a estagnação do processo de restauração do Castelinho, um dos primeiros pontos abordados no desenvolvimento do projeto de restauração pela equipe técnica iniciada em 2020, foi realizar uma pesquisa sobre o que significa culturalmente para os erechinenses. Dessa forma, na próxima reportagem você vai descobrir como a equipe técnica pretende melhorar a acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida e quais são os planos de ocupação cultural para devolver para a comunidade.
Plataformas
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Por Bruna Rebonatto (Estagiária de Jornalismo UPF)
Supervisão de Rodrigo Finardi (Coordenador Geral de Jornalismo do Jornal e TV Bom Dia)