Dia desses, depois de muito tempo, encontrei o Sapateiro de Bruxelas. Foi tudo muito rápido, obra do acaso, ao dobrar a esquina. Há muito não o via pessoalmente, e confesso, no primeiro momento, fiquei deveras impressionado. O velho amigo estava animicamente deplorável. Se não fisicamente, moralmente abatido, aos pedaços, como costuma dizer.
Falou-me que são tantas distorções e barbaridades que atormentam o seu dia a dia nos últimos tempos, que anda pensando em sair do ar. Tomar chá de sumiço. Escafeder-se. Pendurar as chuteiras definitivamente. Enfiar-se numa toca e desaparecer de vez desse mundo de Deus.
Em último caso, pensa em enforcar-se num pé de cebola, o que até agora não fez, tão somente porque não sabe por onde começar.
Para o artesão, definitivamente o planeta foi tomado por xeretas, desocupados, maledicentes, vagabundos e sem-vergonhas. As pessoas de bem, parecem cada vez mais rarefeitas e escassas, escondidas no anonimato; talvez em casa, com vergonha de sair – de botar o bico para fora, segundo o Artífice.
Realmente o belga estava furibundo, irado, soltando fogo pelas ventas, quase fora de si.
A situação atual parece irreversível e lhe causa profunda tristeza, além de imensa irritação, náuseas, pruídos e ganas de aniquilar alguém – seja lá quem for, o primeiro que aparecer à frente.
No entender do mestre, tudo se agravou com o advento da internet: basta que se emita qualquer opinião distraída ou palpite infeliz, para que se instale um bafafá medonho, uma gigantesca discórdia, razão de infindáveis e despudorados bate-bocas no inclemente patíbulo virtual que se tornaram as redes sociais.
Para o experto sábio, tudo e todos - em pensamentos, palavras ou atos - estão sujeitos ao tribunal da inquisição eletrônica, tanto para o bem quanto para o mal - com ênfase para a segunda alternativa. Hoje reina absoluta e impávida a crítica rasa e peçonhenta, que se estende das planícies da total ignorância individual aos píncaros da opinião pública, patrocinada por verdadeiros facínoras travestidos de comunicadores ou âncoras de telejornais globais.
A ordem geral e dominante no neurótico mundo digital é a seguinte: - Na dúvida, radicalize-se! Baixe-se o cacete! É proibido pensar e principalmente discordar do meu ponto de vista.
Para piorar ainda mais as coisas, vive-se além da guerra na Ucrânia e da Pandemia mundial, a guerra de bugios entre os brasileiros. E pior: todos os lados envolvidos nos delirantes conflitos políticos estão claramente muito mais preocupados em representar seus ridículos papéis perante os pares de WhatsApp a realmente defender qualquer argumentação lógica ou positiva no transcorrer da infame contenda. Tudo o que for dito e não estiver de acordo com o pensamento (?) predominante e único da turminha legal, é merda para os demais concorrentes.
Assim deu-se uma solene banana à afabilidade pessoal e à civilidade urbana. A baixaria tomou conta geral, de cima a baixo, todos viraram bugios cibernéticos, salvo as raríssimas e honrosas exceções de praxe.
A lambança fica ainda mais evidente, quando se vê nas telinhas coronéis cangaceiros, reconhecidos por explorarem eternamente a miséria do povo, falarem em vontade popular ou plebiscitos demagógicos. Por outra, há propositada divulgação positiva de ilustres ladrões condenados e repentinamente transformados em arautos da honestidade aos olhos dos incrédulos e apatetados telespectadores.
Nos tempos recentes os delitosos adquirem instintos ainda mais cruéis e grotescos, alimentados pela grande mídia insana e insaciável – reflete o sábio, deixando clara a revolta e sensação de absoluta inutilidade existencial.
Embora apresentando sinais de explícita incontida paranoia conspiratória, o artífice afirma estar com as faculdades cognitivas totalmente preservadas e, portanto, normalzinho da Silva. Mesmo assim, no atropelo da situação e da desenfreada verborragia do sábio, persisti com sérias dúvidas sobre sua sanidade mental.
Finalmente, na despedida do breve e atropelado encontro, em que me couberam apenas as rápidas e cordiais saudações, o Sapateiro de Bruxelas, retomou ao tradicional ímpeto e ao característico espírito altivo que o distingue:
- Porém devemos resistir, devemos lutar, pois podem existir muitos que não nos queiram bem, tão simplesmente por falarmos a verdade. E ao final - como é sabido por todos - a verdade prevalecerá!
Na rápida despedida, deixou no ar uma citação do grande jurista Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. E se foi a passos largos.
Aliás, caro leitor, nada mais lúcido e relevante que suas últimas frases, não?
Parece-me, por tanto, que apesar da rabugice e atrapalho sintomático, o bruxelense, muitas vezes, está repleto de razão. E talvez não esteja tão fora da casinha, como dizem por aí. Certamente pensarei bastante sobre isso até o nosso próximo encontro ou acidental esbarrão.
Médico,
Membro da Academia Erechinense de Letras,
Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.