Aos 22 anos, já com uma moto, Luciano Zanin Tomasi, estava fazendo trilha com amigos e resolveu descansar em uma sombra, quando escutou assovios e em seguida viu novamente uma asa-delta voando por cima deles. Luciano desceu o morro, foi de encontro ao que tinha pousado recentemente, e este lhe pediu uma carona de moto para buscar o carro que estava no topo do morro. Não imaginaria que dali em diante, seu gosto por aventuras iria só aumentar. Depois deste momento, apareceu a primeira oportunidade para conhecer melhor o esporte: ser resgate de um amigo. Após dois anos auxiliando, comprou sua primeira asa-delta vinda de Florianópolis-SC e iniciou os treinos.
Condições climáticas
A condição meteorológica é essencial para quem pratica este esporte. Os pontos mais críticos são na decolagem e no pouso, pois requer ventos de frente e alinhados, não permite ventos laterais ou de calda. Um dos momentos mais perigosos é durante o pouso, uma vez que o piloto não pode escolher o vento e nem a hora em que vai acontecer, deve-se levantar o bico da asa, serve como um freio aerodinâmico. Os voos mais propícios encontram-se no verão, onde na serra gaúcha as altitudes térmicas são mais elevadas do que no litoral. De acordo com o atleta, se tem bastante sol e umidade no ar há formação de nuvens, e o vento ideal para voar com a asa-delta é aproximadamente 15 km/h. Se tiver um pouco menos de vento, em torno de 10 km/h, é mais difícil de permanecer no voo por que a asa tende a afundar.
50 km em duas horas
As térmicas são bolhas de ar ascendente, formadas quando o sol aquece o solo. Por serem quentes e leves, se desprendem, sobem e encontram uma camada de ar mais fria, condensando e formando as nuvens. “Pegamos uma carona nessas bolhas e deslocamos para cima e para o lado que está indo o vento. Vamos até as nuvens, a cerca de 2 km de altitude, quando chegamos na base delas vamos indo de nuvem a nuvem, mas não voamos dentro delas devido o perigo, pois uma aeronave e até mesmo uma asa-delta não irão nos enxergar e pode haver uma colisão”, conta, destacando ainda que num voo em linha reta com duração de duas horas pode se deslocar em média 50 km de distância.
Enfrentando o medo
Aprender a voar de asa-delta fez com que Luciano superasse o medo de altura, logo, aprendendo a controlar melhor as emoções. Para ele, encarar os medos e receios torna-se uma missão engrandecedora e auxilia também no enfrentamento a obstáculos da vida. Além disso, o esporte radical contribuiu com o preparo e condicionamento físico, uma vez que para realizar um voo com maior duração exige-se força para atingir determinada altura e após descer, colocando a aeronave no chão sem se machucar. “É como andar de bicicleta em longas distâncias e ter que voltar para o ponto de origem, não pode se desgastar muito”, pontua.
Resgate
Experiente no esporte, explica que o voo para ser bem-sucedido depende do piloto tomar as decisões certas e fazer um bom planejamento do trajeto a percorrer. “A sensação de estar voando é de paz, pois lá não se escuta barulho nenhum, além do equipamento. Voar ao lado de pássaros é uma experiência incrível”, relata, dizendo que já voou ao lado de 30 urubus na mesma térmica. O piloto da asa-delta ao realizar um voo contará com uma equipe de resgate para se comunicar, além de ter consigo um GPS e repassar as coordenadas para a base em solo. Destaca ainda que um motorista de carro, que entenda de GPS, mapas e também de asa-delta, é essencial para segurança do piloto.
Locais
Para quem quer praticar este esporte é necessário atentar-se à infraestrutura e segurança dos locais, que devem ser legalizados pela Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL). Ultimamente Luciano tem voado no Planalto Sul de Santa Catarina, no município de Tangará, entre Joaçaba e Videira, no Morro Pico Agudo de aproximadamente 350 metros. Neste lugar, há condições de decolagem para três quadrantes: Leste, Norte e Oeste. Em Erechim, com o vento Sul, os voos são realizados com mais frequência no Morro do Batata de 140 metros. Após a pandemia, o atleta pretende ir novamente à cidade gaúcha de Sapiranga, onde tem cerca de 50 voadores de asa-delta e dispõe do Morro Ferrabraz com 500 m de altura. Neste município está a Associação Gaúcha de Voo Livre (AGVL), responsável por coordenar todos os voos no estado gaúcho. Para frequentar um clube o piloto deve ter uma carteirinha e ao se associar é permitido a voar em qualquer outro.
Equipamentos
A asa-delta é composta por alumínio aeronáutico e fibra de carbono. Antigamente era só de metal, sendo mais pesada e resistente. Atualmente, as estruturas das asas estão vindo de full carbono, equipamento de alto rendimento e mais leve. A vela é semelhante as que se usam em barcos. Uma asa-delta moderna, feita com tecnologia avançada, pode alcançar a velocidade máxima de 150 km/h. Luciano decola com uma asa-delta mais antiga com a estrutura, barra de comando e barras laterais em alumínio, por oferecerem maior segurança em comparação com as de fibra de carbono. Além disso, o piloto deve utilizar um cinto, tipo uma roupa, que serve para segurar o piloto ao equipamento por meio de um mosquetão, paraquedas reserva, capacete de fibra de carbono com rádio comunicador conectado, GPS, e variômetro que marca a velocidade, altitude, altura e sinaliza sonoricamente quando está subindo.
Curso e preparação
De acordo com Luciano, que também é instrutor credenciado do esporte, a preparação do aluno com aulas práticas e teóricas varia em torno de quatro meses a um ano. Deve ser maior de idade e ter um preparo físico básico, de preferência já praticar algum esporte. Quando o aluno se forma ele é do primeiro nível, capacitado de forma básica para decolar com uma asa-delta e pousar. Já no segundo nível, o piloto consegue decolar e permanecer voando por aproximadamente duas horas. Nesta fase, o vento que vem na horizontal encontra o morro, a pressão sobe e permite um voo mais prolongado. Quando o aluno consegue ganhar altura com as térmicas, atinge o terceiro nível. Para se tornar um instrutor deste esporte, o piloto tem que conquistar o quarto nível, participar campeonatos e festivais, além de ter cadastrado voos duplos. “Tem escolas clandestinas que não dão a devida preparação. Isto é arriscado, por isso o aluno deve procurar um piloto que passou por todas essas fases e que está preparado para repassar as instruções”, alerta, explicando que a idade máxima para voar vai depender da visão do aluno e se ele ainda tem condições de correr.
Metade pássaro
Com 50 anos, Luciano conta depois que após ter iniciado o voo com a asa-delta, nunca mais foi o mesmo, pois se tornou metade pássaro. “Andava com os pés no chão, mas sempre com o olhar voltado às nuvens”, finaliza, contando que pratica o esporte acompanhado do filho Caetano Tomasi de oito anos, da filha Luana Tomasi de 18 anos e da esposa Josiele Estela Hubner de Paris, que também é resgate oficial.