O Sapateiro de Bruxelas, sob o triste contexto da pandemia, acaba por se entregar frequentemente a devaneios filosóficos ante a dura situação atual. Segundo suas elocubrações, o mundo dá voltas e voltas em redor de si e do sol, e pouco ou quase nada muda no andar da carruagem, salvo alguns solavancos ou situações inéditas, geralmente associadas à estupidez humana, especialmente a algumas acontecidas nos últimos tempos.
No início de sua prédica semanal à turma do cafezinho, ensina o mestre que o pensamento da Idade Moderna, foi influenciado pelo Renascimento e pelo Iluminismo, que trouxeram uma nova concepção de realidade. Lembra que a visão teológica predominante até o século XV – aliás, muito apreciada pelo coureiro -, foi gradualmente substituída por uma ótica mais racional do ser humano, e como este se apresenta de fato e direito na organização social vigente.
Assim, segundo o artífice, em tempos menos subjetivos e mais práticos, cada pessoa acaba por conquistar sua posição na coletividade de acordo com a sua capacidade de ser dono de seu próprio nariz, e do poder de influenciar com seu próprio nariz, dedo ou qualquer outra parte do corpo, o destino dos outros. Esta forma de aceitação coletiva da individualidade permite que alguns ampliem seu raio de ação à custa da restrição da liberdade de outrem. Divaga então o velho: sempre que alguém toma o lugar dos deuses, acaba por esquecer que os demais também existem.
Mas voltando ao tema inicial - a estupidez humana - sob um ponto de vista mais atual, o Sapateiro evoca o filósofo René Descartes (1596-1650), fundador do racionalismo moderno, a quem o artesão nutre profunda admiração.
O pensador francês associa liberdade ao conceito de livre-arbítrio: o homem é livre na medida em que pode escolher fazer ou não alguma coisa sem ser coagido por força exterior, ou seja, livremente.
No entendimento cartesiano a liberdade é o ato de saber avaliar bem e racionalmente todas as alternativas disponíveis antes de tomar uma decisão. Para Descartes, age com mais liberdade, eficiência e eficácia, quem melhor compreende as alternativas que precedem a escolha. Em outras palavras, simplifica o calçadista: mais livre é o sábio que faz as coisas bem-feitas.
Aqui, o artesão recorda tempestivamente, que nem todos os “sábios” cultivam o hábito da compreensão ou de bem avaliar as alternativas racionalmente disponíveis para tomarem suas decisões. Alguns, um tanto obtusos, acabam por perpetrar imensos estragos éticos e objetivos, aparentemente sem o menor sentido ou necessidade. Donde deduz, cartesianamente o belga, que os não sábios e desinformados estão mais propensos a grandes erros e trapalhadas grosseiras vida afora.
Para o artífice, que também é fã de Nietzsche, o livre-arbítrio esconde uma vontade de dominação ou um mecanismo de controle do homem sobre a ação do outro. Exemplo: “Eu sou livre, e além de ser livre eu mando, e vocês têm de obedecer”. Tais situações surgem claramente à luz do dia, quando apaniguados chegam a cargos de decisão, acalentados pela soberba e pela insensibilidade ignorante.
Para Nietzsche, o homem livre supera a si mesmo, pratica uma espécie de “desapego” ou desconstrução de si e é um criador de novos valores. Abrindo um corolário, o calçadista afirma que grandes dificuldades, como as que vivenciamos nos dias atuais, destacam e acentuam as diferenças entre os bons e maus líderes no exercício de suas liberdades em circunstâncias semelhantes.
Na sequência da sólida argumentação o bruxelense traz à baila o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) para quem uma boa vida depende da harmonia entre segurança e liberdade, e que seria impossível ter as duas ao mesmo tempo. Bauman diz que a modernidade resultou no excesso de ordem e na escassez de liberdade. Já no decorrer do Século XXI, em tempos e modernidade líquida ou pós-modernidade, predomina a desregulamentação das instituições, a crise das ideologias e a ascensão da liberdade individual.
Afirma o belga, que nesse vácuo organizacional e com o individualismo exacerbado correndo solto por aí, repentinamente surgem alguns chefetes dotados de “peculiar bom senso”. Tais figuras, pouco sábias e bastante arrogantes, ao exercerem o livre arbítrio, não hesitam, pela força de seus tresloucados atos, a colocar em risco a vida de pessoas, corporações ou entidades que deveriam estar acima das vaidades intestinas de quem quer que seja.
Ao encerrar sua fala na telinha brilhante do computador, o Sapateiro de Bruxelas observa que normalmente a coletividade considera muito as pessoas responsáveis pelas ações praticadas frente a instituições que ocasionalmente dirigem, sejam estas públicas ou privadas. Também, normalmente, de acordo com as suas performances, resultados e responsabilidade moral, estas mesmas pessoas são reconhecidas, elogiadas ou devidamente reprovadas e condenadas ao ostracismo.
Em suma, hoje em dia, sua excelência o público, exige transparência, justiça e resolutividade por parte das organizações. Portanto, aqueles que aprontaram alguma lambança muito grande – especialmente no decorrer da pandemia – mais cedo ou mais tarde serão julgados e cobrados ao menos pelo tribunal do bom senso comum. Infelizmente alguns ainda não se deram conta que a vida dos outros não é material descartável – conclui o bruxelense.