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Economia

Bom Dia Entrevista, jornalista Cristiane Rhoden: ‘Luiza precisa de mim’

Coordenadora da TV Câmara, Cris Rhoden revela que procurou não pensar no câncer como uma sentença de morte. No amor pela filha, Luiza (foto), ela diz ter encontrado a cura

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Divulgação
Por Salus Loch
Foto Divulgação

Profissional competente e dedicada, com reconhecimento estadual, a jornalista Cristiane Rhoden, 42, já produziu reportagens  que sensibilizaram o Rio Grande do Sul e o Brasil. Na quarta-feira, 12, contudo, depois de quase nove meses de tratamento e três procedimentos cirúrgicos contra um câncer de cólon, ela pode dar à família e amigos a notícia que mais esperava: a remissão da doença.

Nesta entrevista, a Cris - com quem tive o privilégio de trabalhar por alguns anos, na prefeitura de Erechim - conta um pouco de sua história, revela que o amor por sua filha, Luiza, foi determinante para que seguisse em frente, dá dicas àqueles que estão em tratamento, ou que tenham recebido diagnóstico recente de câncer, e ensina: “a vida vai passar rápido, não brigue com as pessoas, não critique tanto seu corpo. Viver é maravilhoso”.

 

Como você descobriu que estava com câncer? Qual foi sua primeira reação ao receber o dignóstico?

Em março de 2020 comecei a sentir cólicas abdominais. Como havia retomado os treinos na academia, inicialmente pensei que fosse dor muscular. Relevei. O tempo passou, as dores voltavam, diminuíam e retornavam. Em maio procurei meu médico, o ginecologista André Detoni. Fiz uma bateria de exames. Nada apareceu. Dr. André me orientou a procurar um proctologista porque desconfiou que eu poderia estar com algum problema intestinal. Relutei por bastante tempo, inclusive, pelo preconceito com a área (o que é comum para a maioria das pessoas). As dores foram aumentando e se tornando mais fortes com o passar do tempo. Comecei a perder peso e sofria com constipação. Até que em agosto, quando tinha dificuldades para caminhar e dormir, enfim resolvo procurar o proctologista Enzo Taglietti. Na primeira consulta a orientação foi tomar antibióticos por uma semana. Sem efeito, na reconsulta, como as dores persistiam, o médico decide fazer uma colonoscopia. Exame marcado para às 10h da manhã do dia 14 de agosto de 2020. Como o exame é feito com o paciente sedado, quando acordei, cerca de 15 minutos após o início do procedimento, já estava na sala de tomografia. Dr. Enzo identificou a lesão no cólon (no mesmo exame já coletou material para biopsia) e pelo tipo e tamanho do tumor desconfiou que poderia já haver metástase em outros órgãos. Por isso fiz tomografia logo em seguida. Na conversa com o médico as palavras foram as seguintes: “Cris a situação não é boa. Tu tens uma lesão no cólon. Eu já encaminhei o material para biópsia, mas minha experiencia diz que é câncer por isso eu já reservei um horário para cirurgia na terça-feira (18/08 – quatros dias depois) no Hospital de Caridade. Temos que tirar. Tu tens 40 anos e uma filha pequena, precisa viver”, disse Dr. Enzo. Três dias depois o resultado da biopsia apontava adenocarcinoma de reto, estágio 3 (câncer de cólon). E com a mesma confiança do médico eu encarei o fato. Eu preciso viver e a Luiza precisa de mim. Sempre digo: Luiza: minha filha, minha cura. Procurei não pensar no câncer como uma sentença de morte.

Como se deu o tratamento? Você fez todo o processo em Erechim, ou precisou buscar amparo fora daqui?

Recebi a notícia na sexta-feira (14/08), logo comuniquei a família e a mobilização iniciou. Na terça-feira seguinte (18/04) fiz cirurgia  para retirada do tumor, da parte do intestino afetada e os gânglios linfáticos (pequenas estruturas que fazem parte do sistema de defesa do corpo) dentro do abdome. Fui ostomizada (a pessoa ostomizada é aquela que precisou passar por uma intervenção cirúrgica para fazer no corpo uma abertura ou caminho alternativo de comunicação com o meio exterior, para a saída de fezes ou urina, assim como auxiliar na respiração ou na alimentação. Essa abertura chama-se estoma). Por oito meses precisei de uma ileostomia. Cerca de 15 dias após a cirurgia fui a primeira consulta com o médico oncologista, Dr. Juliano Sartori do Centro do Câncer Erechim (COC). Alguns dias mais tarde precisei implantar um cateter e em seguida iniciei a quimioterapia. Meu protocolo chama-se Folfox 6. Fiz todo tratamento em Erechim. Apenas o exame, o PET CT (exames diagnósticos por imagem (PET e CT) que quando realizados em conjunto são muito eficientes na detecção de cânceres, doenças do coração e problemas neurológicos. A sigla PET vem do inglês e traduzida significa “Tomografia por Emissão de Pósitrons”.) fiz em Porto Alegre. Neste ano, o mesmo procedimento foi realizado em Passo Fundo, após o término das quimios. Erechim ainda não oferece esse exame.

Quantos meses durou seu tratamento?

Foram quase nove meses de tratamento. 12 ciclos de 48 horas de quimioterapia (durante
cerca de 5 horas tomava medicação na COC e depois ia para casa com uma bombinha que mandava medicação para o cateter por mais 42 horas. Aliada a quimio fiz uso de medicação oral, suplemento alimentar e vitaminas. Três procedimentos cirúrgicos: um para retirada do tumor. O segundo para implantação do cateter e o terceiro, agora no último dia 26 de abril, para reversão da ileostomia. 

Quais foram os momentos mais difíceis durante o tratamento? Foi possível seguir trabalhando? E em casa, com sua filha e marido, como se deu a relação?

Foram vários momentos de angústia e incerteza. O tratamento terá a resposta esperada? Quanto tempo terei? Vou vencer? Vale destacar que o câncer colorretal é o segundo mais frequente em homens e mulheres no Brasil. São 40. 990 novos casos todos os ano. O que me ajudou a enfrentar o câncer com mais força foi o compartilhamento de experiências. Incentivada pelo Dr. Enzo comecei a fazer postagens nas minhas redes sociais sobre a doença, procedimentos e o que estava acontecendo. Claro, não com a mesma frequência que um digital influencer (esse não era o objetivo), mas com a periodicidade que o momento permitia. São muitos altos e baixos. Dias de dor e tristeza profunda, quando só o silêncio ameniza, o que no meu caso, com a Luiza era praticamente impossível. Porém, os carinhos da minha filha me fortaleciam sempre. O que me abalou muito foi, na primeira cirurgia, ficar internada por sete dias, longe da Luiza. Depois aceitar estar ostomizada. É uma realidade bem difícil. Precisei me adaptar, mudar hábitos e até aprender a escolher roupas que se adaptassem a "bolsinha". Foi duro. Depois vieram os efeitos colaterais da quimioterapia como os choques nas mãos e garganta, mal estar e muito cansaço. Entrei em laudo logo após o diagnóstico. Retornei à atividade profissional em janeiro deste ano. Em casa sempre recebi muito apoio. Minha família, em especial meus pais Marli e Luiz, incansáveis cuidando da Luiza e de mim, o Claiton, meu parceiro e marido, meus irmãos Deise e Cristiano, longe, mas presentes sempre, e as tias Isolde, Liane e Sirlei, que não mediram esforços para me ajudar, além de amigos e até desconhecidos sempre muito presentes com flores, mimos ou palavras de incentivo e força. Sem falar na minha filha canina, a Mila, um parceira inseparável. Sempre ao meu lado também.

Nesta quarta-feira, 12, você recebeu a notícia da remissão do seu câncer, ou seja, que ele está sob controle. Qual foi seu sentimento?

Uma sensação inexplicável. Uma alegria que não cabia em mim. É muito engraçado, como jornalista, já escrevi muito sobre o câncer, sobre pessoas que venceram a batalha e até sobre quem perdeu a guerra para a doença. Mas viver o Câncer é diferente. É transformador. Você sente dor na alma, chora de tristeza, pede mais tempo e aprende a valorizar cada segundo. Eu aprendi muito e ainda estou aprendendo. Agora em remissão tenho novos sonhos, os mais simples, mas o maior é ver e acompanhar a Luiza crescer, compartilhar cada fase da vida dela.

 Após ser informada da remissão, quais os próximos passos?

Após o tratamento, é importante realizar o acompanhamento médico para monitoramento de recidivas ou novos tumores. Há cada 60 dias farei exames. De seis em seis meses terei que fazer colonoscopia e outros exames de imagem. Continuo tomando algumas medicações, em especial para os formigamentos nos pés e mãos, reflexos da quimioterapia que podem se estender por seis meses. Mas o principal: viver com resiliência, estar mais perto da família e fazer o que gosto e o que me deixará feliz. Aliás nesta etapa não esqueço do jornalismo. Profissão que escolhi e que, infelizmente não é valorizada. 

O que você diria às pessoas que estão em tratamento, ou que recebem o diagnóstico da doença? No teu caso, o que lhe deu forças para seguir sempre de cabeça em pé?

Minha força e fé sempre vieram de um único propósito: Luiza precisa de mim.  Às pessoas que estão em tratamento (eu estarei por muito tempo ainda), ou que receberam o diagnóstico de câncer eu só tenho a dizer que é preciso ter fé e acreditar, mesmo que o prognóstico não seja animador. A vontade de viver e o pensamento positivo também curam.  Também tenho um conselho para quem acredita ser saudável: pense, reflita e preste atenção nos sinais que o corpo dá. A dor é um sinal e, muitas vezes, só temos uma chance de nos cuidar. Não esqueça esta vida vai passar rápido, não brigue com as pessoas, não critique tanto seu corpo. Viver é maravilhoso!

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