Quando a Cooperativa Regional de Eletrificação Rural do Alto Uruguai, Creral, foi fundada, em julho de 1969, seu propósito era levar luz ao campo. Passados quase 50 anos, as atribuições da entidade – que precisou se reinventar no início da década de 90 – suplantaram, em muito, a estimativa de seus idealizadores. Mérito de um corpo diretivo liderado pelo presidente Alderi do Prado e pelo conjunto de associados distribuídos em 37 municípios do norte gaúcho. Na entrevista a seguir, Alderi explica o funcionamento da entidade, fala de números, projetos e garante: a Creral está atenta às ‘oportunidades’ do mercado.
No final de 2018, a Creral – ao lado de um grupo de empresas – inaugurou uma usina termelétrica ‘a casca de arroz’ em São Sepé. Em 2019, deve dar início a outra planta, nos mesmos moldes, em Capivari do Sul. Este é um novo filão de investimentos da cooperativa?
Sim. Mas, não só este. Estamos atentos às oportunidades do mercado. Em São Sepé, a formação deste grupo (com seis empreendedores) permitiu a viabilização da termelétrica com potência instalada de 8 MW e geração de energia de 56 milhões kWh/ano, sendo que já temos 28 empresas distribuidoras como compradores da energia. Tivemos um investimento de R$ 60 milhões, sendo que a Creral responde por 30% do total. Em Capivari do Sul, reproduziremos o formato do negócio – utilizando a biomassa (casca de arroz). A planta, porém, ainda está em fase inicial de aprovação de projetos junto à Fepam. Imaginamos que a obra deva entrar em operação em 2020, gerando 60% da energia de São Sepé.
O Sr. fala em estar atento às oportunidades. O aproveitamento da energia solar (fotovoltaica) estaria no radar?
Também. Este é um modelo em construção. No momento, estamos avaliando a melhor estratégia. Posso antecipar, contudo, que em Erechim temos índices de insolação que viabilizariam a negócio. Agora, é definir a melhor forma de execução.
A Creral passará a priorizar parcerias financeiras para seus investimentos futuros?
Vai depender da estratégia a ser adotada e do volume de investimento necessário. Parcerias são importantes para alcançarmos novos mercados. Lembrando que tudo deve ser aprovado pela assembleia. Foi ouvindo o associado que superamos nosso momento mais difícil, em 1992. E é assim que estamos crescendo ano a ano.
Aliás, qual é o crescimento em 2018? E para 2019, o que está previsto?
Estamos finalizando os números de 2018, mas iremos superar os 10% - creditados à Telecom e ao que chamo de ‘crescimento vegetativo’, eis que, por exemplo, o resultado de São Sepé só entrará em 2019. Para este ano, passaremos dos 15%.
Em 2019, existe a previsão da inauguração da PCH Forquilha IV, entre Maximiliano de Almeida e Machadinho. Será a grande obra dos 50 anos?
Em termos de investimentos, sim. Além disso, ela irá gerar uma potência instalada de 13 MW – a maior que já viabilizamos num único investimento. Devemos concluir a obra em 2019 e fazer com que entre em operação em 2020. Nos primeiros anos, faremos a venda (da energia) no mercado livre, sendo que, de 2023 a 2052, já temos toda a geração contratada com duas dezenas de concessionárias do país, via mercado regulado (leilão público). Vale frisar que, mais uma vez, a união de cooperativas de energia e empresários de Erechim permitiram a execução do projeto. O cinquentenário da Creral (a ser comemorado em 23 de julho), porém, será marcado por outras ações no campo social, ambiental e de valorização e participação do associado, que no momento oportuno iremos divulgar.
Anteriormente o Sr falou que a Telecom foi importante para o crescimento da Creral em 2018. Quais são os números do segmento no faturamento total?
Hoje a Telecom responde por cerca de 20% da receita, restando 80% à Distribuição e à Geração de Energia (40% cada). Em 2019, estimamos que as telecomunicações passem a 25% do bolo. Queremos saltar dos atuais 16 mil clientes para mais de 20 mil. Vamos investir na aproximação com as pessoas, ampliando a inserção em municípios como Erechim, Sananduva, Getúlio Vargas e outros. Em Aratiba, aliás, já oferecemos internet a 100% das comunidades rurais. Considerando o crescimento de 60% entre 2017 e 2018, creio que a meta é plenamente alcançável.
Em relação à distribuição de energia, o êxodo rural afeta e preocupa?
Sim. No entanto, somos parceiros dos produtores em investimentos que permitam a geração de renda e a fixação das famílias no campo, a partir de negócios viáveis. Vemos, porém, que existe uma espécie de ‘verticalização da propriedade’. Ou seja, se por um lado é possível imaginarmos um campo com menos gente, por outro, graças à profissionalização da gestão rural e de investimentos em aviários e outros, devemos ter aumento no consumo de energia. Desta forma, uma coisa acaba compensando a outra.
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Saiba mais
A Creral tem 7.400 associados, 2 CGHs próprias, 2 PCHs em sociedade, 1 termelétrica a casca de arroz (em sociedade), 1 PCH em construção (em sociedade) e 16 mil clientes de internet. A cooperativa beneficia cerca de 300 mil pessoas nos 37 municípios de atuação, alcançando a mais de 75 mil domicílios. Além do presidente Alderi do Prado, compõem o quadro diretivo o vice-presidente Umberto Toazza, que responde pelo setor de Distribuição e o secretário Edilson Guzzo, diretor da Telecom. O conselho de líderes é constituído por 91 membros. Já o conselho de administrativo é composto por 15 pessoas.
Diferencial
Segundo o presidente Alderi, um dos diferenciais da Creral é a atenção prestada ao associado. As estatísticas mostram que o tempo médio de espera para atendimento é de 1h48min. ‘Isso que 80% das áreas atendidas são rurais’, observa o presidente.
Quem é Alderi do Prado
Natural de São Valentim, cresceu na Comunidade do Alto Alegre (hoje Entre Rios do Sul). Estudou na Escola Municipal Carlos Gomes. É casado com Rosa Matilde do Prado. Mora em Erechim desde 1992, quando foi indicado para assumir o comando da Creral numa época em que a cooperativa passava por uma grave crise de gestão, financeira e estrutural. Formado em administração/gestão de cooperativas, de janeiro de 2003 a junho de 2007 foi diretor no ministério de Minas e Energia do programa Luz para Todos - programa de eletrificação rural que levou energia a 2 milhões de famílias no Brasil.