Guilherme Toniazzo Machiavelli saiu muito cedo de Erechim. Mais precisamente, aos 17 anos, quando resolveu cursar Jornalismo na UFRGS. Desde então, seguiu a vida distante da Capital da Amizade. De Porto Alegre foi à Suécia para aperfeiçoar os estudos em mídias digitais. Da Escandinávia, morou na Itália, Inglaterra e, agora na Holanda, onde finalizou mestrado em Artes/Design. Foi de lá, via WhatsApp, que concedeu entrevista ao Bom Dia – inaugurando a sessão ‘Por onde andas?’, que busca resgatar/contar as experiências de erechinenses que moram em diversas partes do globo.
No bate-papo abaixo, Guilherme fala da rotina de trabalho, dos próximos passos e projeta desafios de um futuro nem tão distante.
O que te fez deixar o Brasil e seguir os estudos na Suécia?
Diria que um misto de curiosidade – desejo de expandir horizontes, digamos – com um simples "por que não?".
Foi sua primeira viagem internacional? Quando saiu do Brasil, já pensava em não voltar?
Não foi a minha primeira viagem internacional, mas foi a primeira viagem para fora da América Latina e também a primeira sem planos de retorno imediato.
Da Suécia, você passou por Itália, Inglaterra e Holanda. Qual a importância desta bagagem em sua profissão?
Essa bagagem é fundamental para formar quem sou hoje. Conheci pessoas, culturas e pontos de vistas diferentes que ajudaram a construir e informar aquilo que faço, desejo e acredito. A trajetória profissional, no entanto, é cada vez menos algo que enfatizo - e na qual ficar pulando de um país para o outro é de valor ambíguo: se de um lado minha visão de mundo pode ser desejável; de outro, alguns empregadores tem certo medo (justificado) que eu me mude para outro país depois de um ou dois anos na empresa.
Com a conclusão do mestrado em Artes/Design, qual o próximo passo?
Os dois anos de mestrado foram anos de atividade profissional (logo, renda) limitada, então me dediquei a trabalhar por algum tempo para normalizar o orçamento. Agora que as coisas estão regularizadas, a ideia é continuar os temas de pesquisa do mestrado em um doutorado, aqui (PhDArts entre Haia e Leiden) ou volte para a Itália (Ciências do Design no IUAV, Veneza).
Como se dá sua relação/rotina de trabalho?
Depende do que entendemos como trabalho. Quatro dias por semana vou de Amsterdam a Utrecht, onde trabalho como programador em um estúdio de design. È uma ocupação como qualquer outra e que me serve, sobretudo para pagar contas. Boa parte do resto do tempo uso para ler, estudar e tocar projetos que pessoalmente considero mais importantes, mas que não necessariamente coincidem com atividades consideradas lucrativas.
O que você diria para quem sonha em estudar, trabalhar ou morar no exterior?
Cada pessoa é um caso diferente. O que funciona para mim não necessariamente é o que funciona para outros. Acho que determinação e sorte foram fatores determinantes: sorte no sentido de ter nascido em uma família que deu oportunidades econômicas e determinação no sentido de ter certa ideia do que eu quero da minha vida. Descobrir o que se quer é fundamental.
Como você percebe o avanço de partidos nacionalistas na Áustria, Polônia, Alemanha, Itália, Hungria? Qual a causa e consequências disso?
Acredito que esses proto-fascismos (incluindo Trump e Bolsonaro) são ligados à sedução das soluções simplistas para problemas extremamente complexos. É mais fácil dar a culpa a minorias (muçulmanos, LGBTs, refugiados, "comunistas") do que entender que, por exemplo, grande parte das mazelas sociais de agora podem ser associadas à liberalização excessiva dos mercados financeiros nos anos 70, acelerada com Thatcher e copiada pelo resto do mundo, responsável por redistribuição de renda das classes médias e baixas às elites banqueiras. Isso feriu mortalmente o poder das instituições democráticas sobre os rumos das políticas interna e externa no Ocidente. Além disso, parece que não conseguimos pensar em ideias que não sejam voltar para um mítico e inexistente passado perfeito de 50 anos atrás ou continuar tudo mais ou menos como está. As consequências são aquelas que estamos vendo: crimes de ódio aumentando na Itália e Reino Unido, antissemitismo na Hungria, implosão do sistema político inglês. Não vai parar por aí: quando a repressão às minorias não resolver, qual o próximo passo? A quem vão dar a culpa? Sem mencionar que essas tensões crescerão com crises planetárias tipo o aquecimento global.
Aliás, na Andaluzia/Espanha, tivemos a ascensão do partido Vox, também de extrema-direita...
Sim. Embora não consiga achar a fonte agora, as únicas zonas em que a extrema-direita não cresceu na Andaluzia foram áreas que estavam já sob a esfera do Podemos. O que é interessante porque, se verdade, colocaria a esquerda progressista (em oposição à centro-esquerda defensora do status quo) como uma das poucas forças que conseguem enfrentar e vencer a extrema-direita no momento.
De que forma a inteligência artificial e outras tecnologias afetam nossas vidas?
Entre as ramificações das tecnologias, me interessa particularmente as ideias de Nick Srnicek e Alex Williams. Eles acreditam que em um futuro relativamente próximo nos encontraremos em uma sociedade na qual a maior parte das profissões serão automatizadas, ao mesmo tempo que novas profissões não serão suficientes para garantir emprego a mais do que uma ínfima minoria. A solução proposta é a gradual desvinculação do trabalho com a subsistência: iniciando com a redução da semana de trabalho de 5 para 4 dias e a instituição de programas de renda básica universal. A alternativa a essa visão é aquilo que é já claro em estúdios de design: tarefas que exigiam diversas pessoas por vários dias agora são feitas por um designer antes do meio-dia. Isso reduz a oferta de empregos disponíveis, mais competição e precarização: não quer fazer hora extra? Quer aumento? Quer condições de trabalho melhores? Tem gente mais desesperada e tão habilidosa quanto você a um e-mail de distância.