Cheiroso, com um lenço enrolado no pescoço e visivelmente feliz, quem vê o pequeno cãozinho cor caramelo aconchegado e sereno no colo de Robson de Lima e de sua esposa Vanessa, nem imagina que por trás da tranquilidade daquele momento, há uma história emocionante e cheia de desafios. Adotado pelo casal na última semana, o animalzinho foi encontrado às margens da ERS 135. Robson, que é marceneiro e mora em Erechim, voltava de Getúlio Vargas depois de uma viagem a trabalho, quando enxergou o cachorro largado na beira da estrada. Após andar mais alguns metros, inquieto, retornou ao local quando percebeu que além de estar abandonado e muito magro, o cachorro tinha um ferimento em uma de suas patas traseiras.
De moto, se viu diante de um impasse. “Eu sabia que não conseguiria voltar para casa e colocar minha cabeça no travesseiro para dormir tranquilo, tendo deixado ele lá. O problema é que eu estava de moto, e não tinha muito o que fazer. Então, acabei ligando a moto, peguei ele no colo e trouxe comigo, mesmo sabendo que era arriscado pilotar com uma mão só”, lembra Robson, que pilotou por cerca de oito quilômetros na rodovia com o cãozinho a tiracolo.
Mesmo sabendo dos riscos, a atitude do marceneiro foi motivada, como ele mesmo destaca, pelo amor aos animais. “Sempre gostei dos bichos e não consigo entender como alguém é capaz de fazer uma maldade dessas. Cheguei a voltar e procurar nas casas próximas se era de alguém. Mas certamente tudo indica que ele foi abandonado lá a própria sorte, e ainda machucado”, pontua.
A repercussão na internet
Ao trazer o cachorro consigo, a ideia inicial, segundo ele, não era adotá-lo, mas tirá-lo daquela situação e em seguida, com a ajuda de ONGs, verificar seu ferimento e encontrar alguém para adotá-lo. Para isso, relatou nas redes sociais o ocorrido visando achar alguém que se interessasse em ser dono do animalzinho. “Eu moro em apartamento, ficamos o dia todo fora, então não cogitei inicialmente ficar com ele, pois seria complicado”, recorda. A publicação imediatamente repercutiu localmente. Além disso, por ser integrante de um grupo nacional de animais chamado “Catioro Reflexivo”, no Facebook, optou por contar sua história também no grupo, quando o post viralizou e acabou motivando uma “campanha” para que Robson adotasse o animalzinho. “Muitas pessoas começaram a se oferecer para ajudar e pedir que eu adotasse ele. Eram muitos comentários de pessoas sensibilizadas e dispostas a ajudar”, conta.
Além da mobilização na internet, outra situação foi fundamental para que o cãozinho fosse adotado por aquele que o salvou. Já na primeira noite na casa de Robson – que a princípio ofereceu lar temporário – o animalzinho acabou ganhando também o coração de Vanessa. “Eu me apaixonei por ele, já me encantei e disse que não teríamos mais como entregá-lo a outra pessoa. Ele seria nosso”, destacou Vanessa, agradecida pela ajuda de todos que colaboraram e feliz enquanto segurava o novo integrante da família em seu colo.
Animado com a repercussão positiva na internet, Robson então retornou ao grupo onde relatou a história para dar as boas novas: “Boa tarde galera. Então, o cão que eu resgatei essa semana com a pata quebrada largado numa BR entre o meu município (Erechim - RS) e o município vizinho (Getúlio Vargas - RS)... Eu vou ficar com ele. Vai se chamar Cusco Guerreiro”. A notícia emocionou os demais integrantes do grupo, que comemoraram a decisão. Tamanho foi o envolvimento na publicação que o post foi parar na página oficial do Catioro Reflexivo no Facebook, que tem mais de 4,5 milhões de seguidores.
Na página a história rendeu quase 20 mil curtidas e mais de 1,2 mil compartilhamentos e emocionou pessoas de todo o Brasil que acompanharam a trajetória até a adoção do Cusco Guerreiro. “Escolhemos esse nome por dois motivos. Primeiro porque sou gaúcho, gosto dos nossos costumes e aqui é muito comum termos nossos cuscos. E Guerreiro por causa da história dele”, resume Robson.
Ajuda a um joão-de-barro
O resgate do Cusco Guerreiro não foi o primeiro ato heroico de Robson com os animais, que entre outras atitudes, faz questão de levar quirela para os pássaros que visitam seu local de trabalho. No início deste ano ele também já havia salvado um joão-de-barro que se envolveu em uma situação inusitada. “Um joão-de-barro fez ninho em um poste na frente do lugar onde eu trabalho. Quando um dos filhotes que estava na casinha tentou dar seu primeiro voo, ficou enroscado em um dos ciscos que havia sido utilizado na construção do ninho”, conta. Sem encontrar uma escada que alcançasse o topo do poste, Robson o escalou para salvar o passarinho que pôde então voar.
“Que a nossa história sirva de incentivo”
Felizes com a repercussão positiva na internet, mas principalmente pela alegria de terem ganhado um amigo para toda a vida, Robson e Vanessa esperam que a história do Cusco sirva de incentivo para que mais pessoas adotem e, também, para que se sensibilizem com os animais. “Nosso desejo é que as pessoas não façam isso com os bichinhos, que não os maltratem. Tudo bem se não gostarem, mas que não façam mal a eles, que não os machuquem e principalmente que não os abandonem. Felizmente a história do Cusco teve um desfecho feliz, mas quantos outros infelizmente não têm essa sorte... Esperamos que a nossa história sirva de incentivo”, pontuam Robson e Vanessa.
E para o Cusco Guerreiro, a única marca que ficará do seu passado é o machucado de sua patinha, pois quando o animalzinho foi encontrado, a fratura já havia ocorrido há muito tempo, o que impediu que os profissionais que o atenderam de fazer algo para reverter a situação. Por isso, apesar de se movimentar, andar e até correr, o cãozinho permanece com a pata recolhida, como sequela do ferimento. Mas, para quem agora tem, além de carinho, um lar e dois amigos para a vida inteira, isso é um mero detalhe que já não faz mais diferença alguma.